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Paróquia Nossa Senhora da Conceição Pacajus - Ceará

Mãe só tem uma!

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Por: paroquiapacajus

domingo, 13 de maio de 2018

Quem nunca riu desta inocente anedota em que uma professora pede aos alunos uma dissertação sobre a importância da mãe? Joãozinho, no seu trabalho, conta que, certo dia, receberam em casa, umas visitas e em dado momento, a mãe o ordena que traga umas garrafas de suco para servir aos visitantes. Ele atende, prontamente, mas ao chegar e abrir a geladeira, berra: mãe, só tem uma! E, de uma forma hilária, revela-nos uma das mais sublimes verdades sobre esta dádiva de Deus para nós: Mãe, verdadeiramente, só temos uma!

É verdade que Deus nos chamou para uma vida na carne, no ventre de nossa mãe e para uma vida no Espírito, no coração da Mãe Igreja. Mas, em função de sua importância na nossa vida, e pela carência que temos de colo, fomos agraciados com outras mães. Assim, são também nossas mães: Eva, a mãe da humanidade; Sara, a mãe da fé; Jocabed, a mãe protetora; temos ainda, a mãe natureza, a mãe sabedoria, a mãe Igreja, as mães avós, e Deus nos presenteou, também, com a mãe de seu Filho Único, Maria, Mãe do Senhor, nossa mãe, na terra como no céu. Alguns privilegiados tiveram a graça de ter uma mãe de peito, a ama.

Fiz um levantamento e verifiquei que a palavra mulher aparece na Bíblia 1108 vezes, sendo 885 no Antigo e 223 no Novo Testamento. Constata-se que a condição de discriminação em relação aos homens, tem origem nas culturas e não na Bíblia, uma vez que a palavra homem surge 1760 vezes, 1298 no AT e 462 no NT. Acrescente-se ainda, homens no plural num total de 1397 vezes, 1082 no AT e 315 no NT. A palavra pai aparece num total de 1634 vezes, 1164 no AT e 470 do NT. Numa sociedade marcada pela cultura do patriarcalismo, no tempo em que a Bíblia foi escrita, a mulher até que foi bem destacada na Palavra de Deus.

A palavra mãe consta em 345 registros, 255 no AT, e 90 no NT, assim distribuídos: Gn, 25 vezes; Ex, 7; Lv, 15; Nm, 3; Dt, 12; Js, 3; Jz, 16; Rt, 2; 1Sm, 5; 2Sm, 3; 1Rs, 17; 2Rs, 23; 1Cr, 2; 2Cr, 12; Tb, 8; Jt, 1; Es 1; 1Mc, 1; 2Mc, 7; Jó, 4 Sl, 10; Pr, 13; Ecl, 2; Ct, 8; Sb, 2; Eclo, 17; Is, 7; Jr, 9; Lm, 3; Ez, 10; Os, 4; Mq, 1; Zc, 2; Mt, 26; Mc, 20; Lc, 17; Jo, 11; At, 2; Rm, 1; Gl, 2; Ef, 2; 1Ts, 1; 1Tm, 4; 2Tm, 1; Hb, 2; e Ap, 1 vez.

Na Bíblia, como na vida, antes da mãe, vem a mulher. Assim, antes de nos conceber no ventre materno, Deus gerou para nós, na criação, a primeira mulher, a mãe da humanidade: “E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos” (Gn 3,20).
A Palavra de Deus sublinha a maternidade como o papel principal da mulher no Plano de Deus. Assim, dentro do Plano de Criação e da ordem divina de crescer e multiplicar (Gn 1,28) a mulher recebe a bênção das bênçãos, a missão de ser mãe, uma vocação tão importante na Bíblia, que Deus concedeu este dom, inclusive, às mulheres estéreis, ou idosas, para livrá-las da esterilidade, que diziam ser uma maldição. Dentre outras, receberam esta graça: Sara (Gn 17,15), Raquel (Gn 30), Ana (1Sm 1,2), Isabel (Lc 1,57), e para ser a mãe do Salvador, a Virgem Maria, que concebeu sem conhecer homem (Lc 1, 31.32.34).

A mulher sempre foi valorizada pelo dom da maternidade e por ser a dona-decasa. No entanto, quando nos debruçamos sobre as Sagradas Escrituras, facilmente encontramos uma infinidade de atribuições sob a responsabilidade da mulher, sobretudo, das mães. Este discurso feminista de que a mulher alcançou seu espaço na sociedade somente a partir do século dezenove, ignora esta realidade revelada pela Bíblia, num contexto cultural em que a mulher era tida como de constituição inferior ao homem.

A Bíblia relata uma variedade de ofícios exercidos pela mãe, mostrando que outrora a mulher já acumulava a dupla jornada de dona-de-casa e profissional, figurando de escrava, Agar (Gn 16-17) a rainha, Ester (Est 2,17). Assim, temos Débora, uma mulher temente a Deus, mãe, militar, profetiza e juíza, esteve presente nos campos de batalha com o povo de Israel, lutando ao lado de dez mil homens (Jz 4,4-16). Há mulheres que se destacaram como mães de reis e até rainha, caso de Ester que embora não se registre na Bíblia sua maternidade, destaca-se pela inteligência, força, espiritualidade e oração. Dentre todas as mães, duas se destacam: Eva por ser a mãe da humanidade e Maria por ser a mãe
do Salvador e mãe da nova humanidade (Jo 19,27).

Ser mãe é um dom precioso e gratuito de Deus, por isso, o Senhor prescreveu o quarto mandamento para honrá-la (Ex 20,12), uma vez que somos gerados em seu ventre e ela nos concede a vida, entre as dores do parto: “Honra teu pai de todo o coração, não esqueças os gemidos de tua mãe; lembra-te de que sem eles não terias nascido Eclo (7,29-30); Somos Sustentados por ela, que nos providencia o alimento, principalmente, o
leite materno, educa-nos, ensina-nos a disciplina e o caminho que devemos seguir (Pr 13,24; 22,6).

Contudo, a missão da mãe vai muito além de gerar, alimentar e educar, pois cumpre ainda o dever de nos criar, nos edificar, nos exortar e nos corrigir. São João diz que Deus é amor (1Jo 4,8). Ser mãe é ser amor, pois a essência da maternidade é ser amor incondicional, como o divino. Por isso, dá-nos também, o consolo, a proteção e seria capaz de dar a sua vida por nós, se preciso fosse, a exemplo de Jesus Cristo. A bem da verdade, nossa vida brota e se desenvolve, enquanto a vida de nossa mãe se consome.

São João revela que Jesus nos dá a sua carne como alimento (Jo 6,51-58). Diante disso, vejo a mãe como um símbolo do cristianismo, pois a exemplo de Cristo e do pelicano, ave símbolo da Eucaristia, ela nos alimenta, pelo cordão umbilical, com o seu sangue e com sua carne, e recebe dos filhos, muitas vezes, ingratidão. É o que relata a estória de uma mãe pelicano, que após alimentar seus filhotes, com sua própria carne,
durante um inverno rigoroso, morre de fraqueza e um dos filhotes comenta: “ainda bem, não aguentava mais comer todos os dias a mesma coisa”!

A Bíblia relata a vida de muitas mães sofredoras: aquela que decidiu doar seu filho para evitar que o mesmo fosse dividido ao meio numa contenda julgada pelo Rei Salomão (1Rs 3); a mãe dos macabeus, que enfrentou com a bravura da fé, chorou o martírio e a morte de seus sete filhos, por um rei cruel e sanguinário (2Mc 7); a viúva de Sarepta, que lamentou a morte do filho único diante do Profeta Elias (1Rs 17); Maria, a
mãe de Jesus que acompanhou a Via Crucis de seu filho único, sua condenação injusta e seu assassinato, pregado numa cruz (Jo 19,25). Assim é a vida da mãe no mundo inteiro, marcada pela dor e pelo sofrimento. A força que as move são os dons do amor incondicional, da fortaleza e da fé, com os quais Deus as cumulou e que asseguram-lhes uma confiança inabalável no Senhor a ponto de receberam os filhos de volta, na
ressurreição.

Portanto, o amor de mãe é o que mais se aproxima do amor de Deus. Lembro-me de uma cena que presenciei lá no interior, na minha infância: Dona Odete, nossa vizinha, uma mãe para mim e meus irmãos, de saudosa memória, num gesto materno e instintivo de proteção e defesa, durante uma briga, jogou-se sobre seu filho, cobrindo o corpo dele com o seu, para protegê-lo das agressões, dos espancamentos e dos golpes de faca. Diante de tamanha coragem e de tanto amor materno, os agressores recuam.

Mães não nascem, se fazem. A maternidade é uma dádiva de Deus que prepara a mulher para este dom, de duas formas: pela sua graça, e pelo exemplo de outras mães. A Palavra de Deus que é útil para ensinar, capacita a mulher, tornando-a perfeita para a vocação materna (2Tm 3,16-17). Aprende-se a ser mãe, sendo mãe e com os ensinamentos e as experiências de outras mães. A Bíblia nos traz ricos ensinamentos, de mãe para mãe.

As mães aprendem com Sara, que recebera o dom da maternidade na velhice (Gn 21,2), a perseverarem na fé, a esperarem no Senhor, a serem fieis e leais ao esposo, mesmo na adversidade; Rebeca ensina-lhes o valor da oração, da obediência e ainda que, às vezes, é necessário quebrar a tradição, sair da passividade, para o bem da família (Gn 27,30).

Com Jocabed, mãe de Moises, que num gesto de coragem, coloca o filho num cesto, sobre as águas caudalosas do Rio Nilo, as mães aprendem a proteção à vida dos filhos e ofertálos à comunidade, para a libertação do povo; Com Ana, mãe de Samuel, a importância da constância na oração e a consagração e dedicação dos filhos a Deus; com Isabel, mãe de João Batista, a obediência no serviço a Deus, com Maria, Mãe de Jesus, a humildade, a abnegação, o silêncio, a oração, a simplicidade, a fé, a submissão e a entrega gratuito de si, ao Reino de Deus; com a mulher fenícia, aprende a fé em Jesus e a não desistir de libertar os filhos do demônio (Mc 7,25-31); com Eunice, mãe de Timóteo, a educar o filho na fé
em Jesus (2Tm 1,5).

A palavra de Deus ordena tanto às mães quanto aos pais para que realizem várias obras na vida de seus filhos, dentre elas, a educação na fé que requer das mães disponibilidade integral, manhã, tarde e noite: “Os mandamentos… Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, …em tua casa, … pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares” (Dt 6,6-7). Ser mãe é assumir o fardo da família inteira sobre seus ombros, a exemplo de
Jesus. Sofrer na dor e no silêncio, não reclamar, apenas amar para cumprir a missão de envolver-se e de interagir na vida dos filhos, de ensinar-lhes o caminho, de discipliná-los no amor e no temor de Deus, impondo lhes limites, à luz das Sagradas Escrituras.

A Maternidade, sem dúvida, é o dom mais precioso do Criador para a mulher. Por isso, a mãe é cheia de graça, de carismas, de qualidades e aptidões. Capaz de amar a Deus nos outros, de amar os filhos dos outros como se fossem seus. Missionária e acolhedora, orante e silenciosa, compreensiva, apesar de incompreendida, incansável, no lar e na comunidade, no ofício de mãe ou em qualquer profissão. Versada na sabedoria, na fé e na caridade, nunca perde a esperança de ver seus filhos felizes. Sensível e sensitiva, amiga e amistosa, afetiva e carinhosa, desapego e muita entrega, uma jornaleira, firme e forte, de sol a sol.

Pense nisso! Eu retrataria a mãe como alguém triste por sofrer duplamente: por ser mulher numa sociedade que a discrimina e a machuca na carne e por ser mãe, num lar que a explora e a fere na alma. No entanto, a dor e o sofrimento são sinais de sua vitalidade e expressões de sua felicidade. Por isso, devemos olhar para cada mulher com esta certeza: mesmo que não tenha gerado nenhum filho em seu ventre, ela guarda em si, na sua essência, no seu coração, um pouquinho deste dom. Logo, seja tratada e respeitada como se fosse nossa mãe, pois, institivamente, toda mulher tem um pouco de mãe.

Paz e bem!
Jaires Pinheiro