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Paróquia Nossa Senhora da Conceição Pacajus - Ceará

No tempo de nossos avós, parte II

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Por: paroquiapacajus

segunda-feira, 30 de julho de 2018

No primeiro texto sobre a memória do tempo dos nossos avós, abordamos situações importantes da vida e das experiências de nossos antepassados que foram se perdendo no tempo, na cultura e no espaço, tais como: o conhecimento, a tradição, a lei, a moral, os costumes, os hábitos, bem como os valores, as crenças e seus ensinamentos.

Hoje, damos mais um passo nesta reflexão e veremos que este processo de abandono da transmissão dos nossos costumes, de geração em geração, está enraizado na prática desumana de desprezar os próprios avós, os idosos, aqueles que nos conduziram pelas suas mãos, educaram-nos, ensinaram-nos e nos carregaram no colo, que nos ofertaram tudo que tinham, todo seu amor, compreensão e paciência. Aqueles que nos transmitiram a fé e o prazer da convivência familiar são maltratados e marginalizados por suas famílias, esquecidos num quarto no quintal de suas casas, desprezados em asilos e até mesmo, abandonados nas vias públicas.

Neste mês de julho, a Igreja celebra o dia dos avós, o dia do idoso, quando festeja nossos avós espirituais, São Joaquim e Santa Ana, os pais de Maria, a mãe de Jesus e nossa mãe. Uma data que para muitos, excluídos da Igreja, passa despercebida, em virtude da relação fria e indiferente dos homens da modernidade para com as pessoas que deixaram para elas, um legado de valor incomensurável.

De onde vem toda esta indiferença? Não vem da Bíblia, portanto, longe da vontade de Deus, tamanha humilhação. Não vem da Igreja, que fielmente nos exorta a realizarmos, em tudo, a vontade de Deus. Não vem das sociedades mais antigas que valorizavam seus idosos. Ouso afirmar que vem da família, sobretudo daquelas que se afastaram da Igreja e da Palavra de Deus. Contudo, mesmo as comunidades crentes absorveram estas práticas desumanas e anticristãs.

Hoje, muito se discute, no meio social, algumas questões relacionadas à idade: Maioridade, menoridade, melhor idade… A melhor idade é um termo muito usado para designar o idoso. Portanto, sinônimo de ancião, velhice, terceira idade, sessentão, aposentado, fase da vida e outras expressões equivalentes.

À guisa de informação, a Bíblia traz uma série de denominações para esta etapa da vida: idoso (Jz 19,16), ancião (Js 24,1), bem velho, cheio de dias (1Cr 23,1) muito velho (1Rs 1,15), encanecido (1Sm 12,2), anciãos de venerandas cãs e indivíduo de cabelos brancos (Lv 19,32).

Melhor é equivalente a maior, assim, a melhor idade é a “maior idade”. Melhor é superior ao bom; excelente, soberano, supremo, máximo.

Maior é superior ao outro; sumo, mor

Assim, na teoria, a pessoa que chega a melhor idade é o maioral, absoluto, completo, pleno, inteiro, integral, cabal. Na prática, a situação é bem complicada para os velhinhos.

Esta é a lógica do jogo de palavras com seus significados. Entretanto, qual o real valor que a sociedade dá aos seus idosos? E a família, como se prepara para esta fase tão importante de seus predecessores? Algumas culturas valorizam a experiência de vida de seus antecessores como fonte de conselhos. Escuta-os e respeita-os nas decisões importantes. Constituíam o que se denominava “Conselho dos Anciãos”. Sobretudo na Bíblia, guarda-se esta tradição do Gênesis ao Apocalipse.

É impressionante como Deus confia missões importantes e difíceis aos idosos. Na Antiga Aliança: Abraão, Sara, Noé… Na Nova Aliança: Zacarias, Isabel, Profeta Simeão, Profetisa Ana.

A Bíblia relata que Sara concebeu e deu a Abraão, também idoso, um filho na sua velhice (Gn 21,2) e trata a velhice como ditosa: “Abraão entregou sua alma, morrendo numa ditosa velhice, em idade avançada e cheio de dias, e foi unir-se aos seus” (Gn 25,8).

Hoje fala-se em Estatuto do idoso para salvaguardar a vida e os direitos dos idosos. Não haveria necessidade desta lei se os homens não se tivessem afastado de Deus. Segundo o Livro do levítico, Moisés recebeu do Senhor e transmitiu ao povo, uma série de normas e orientações (Lv 19) para suas relações entre si e com Deus, começando por: “Dirás a toda a assembleia de Israel o seguinte: sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo (Lv 19,2) e dentre elas, sublinho a seguinte lei:

“Levanta-te  diante  dos  cabelos  brancos; honra a pessoa do velho” (Lv 19,32). Ou seja, as pessoas de cabelos brancos (designação bíblica para idosos), devem ser tratadas com reverência e respeito.

Estes valores foram transmitidos de geração em geração. São Paulo orienta seu discípulo Timóteo, desta forma: “Ao ancião não repreendas com aspereza, mas adverte-o como a um pai; às mulheres de idade como a mães” (1Tm 5,1).

Com relação ao trabalho, no tempo da aposentadoria, servem como espelho para as novas gerações: “O Senhor disse a Moisés: “desde os vinte e cinco anos para cima, o levita será admitido ao serviço na tenda de reunião. A partir dos cinquenta anos, renunciará às suas funções e cessará de servir. Ajudará seus irmãos na tenda de reunião, zelando pelo que lhe foi confiado” (Nm 8,24-26).

Para Deus, o homem não se torna improdutivo e inservível com a velhice. Contrariando uma tendência na sociedade contemporânea que prima pelo vigor e a capacidade física de produzir, ignorando para estes fins, a indispensável contribuição da experiência acumulada em anos de vida.

Também não haveria necessidade do Estatuto do idoso, se a sociedade cumprisse a constituição Federal, Art. 230 que reza: “A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida”.

Essa norma, não tenho dúvidas, emana da Palavra de Deus e do cuidado, zelo e amor que o Senhor dedicava aos idosos. Veja o que Noemi diz a Rute, quando esta concebe um filho: “Bendito seja Deus, que não te recusou um libertador neste dia. Que o teu nome seja um dia célebre em Israel! Ele te dará a vida e será o sustentáculo de tua velhice (Rt 4,14-15). A família é o amparo do idoso!

Os Salmos lembram desta fase importante da vida do homem: “Na minha velhice não me rejeiteis, ao declinar de minhas forças não me abandoneis (Sl 70,9). Uma súplica velada!

No livro da do Eclesiástico está registrado: “Meu filho, ajuda a velhice de teu pai, não o desgostes durante a sua vida” (Ecl 3,14).

A velhice sempre foi um dom especial para Deus. Aos idosos, reservava-se um lugar no Conselho dos Anciãos, como escrito no Livro do Profeta Daniel: “Os anciãos disseram a Daniel: vem sentar conosco e esclarece-nos, pois Deus te deu o privilégio da velhice” (Dn 13,50)!

O homem sofre as consequências de seus erros, quando não acolhe a experiência dos idosos. Assim ocorreu com o povo de Deus: “O rei Roboão consultou os anciãos que tinham servido ao seu pai Salomão durante a sua vida. Disse-lhes: Que me aconselhais responder a esse povo?” Porém, “não levou em consideração o conselho dos anciãos para diminuir o jugo dos tributos” (1Rs 12,1-15) e, então, provocou a divisão do reino de Israel.

Jesus conhecia muito bem a importância do conselho dos anciãos e por isso, submeteu, ao juízo deles, uma mulher pega em flagrante adultério: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra; a essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele” (Jo 8, 7.9).

Pense nisso! Como tratamos os idosos na família e na sociedade? A dignidade da pessoa consiste em ser a “imagem e semelhança” de Deus e o homem o é, em cada fase de sua vida. Talvez, mais ainda na velhice. Como valorizamos os idosos? Que espaçam ocupam nas nossas vidas? O que é a  Velhice? “Eu fico com a pureza da resposta das crianças…”(Gonzaguinha), nesta pequena estória”

“Uma criança pergunta para sua avó: o que é a velhice? Na fração de segundo antes da resposta, a avó fez uma verdadeira viagem ao passado. Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções. Sentiu todo peso da idade e da responsabilidade em seus ombros. Tornou a olhar para a neta que, sorrindo, aguardava uma resposta, e disse-lhe: Olhe para meu rosto, isso é a velhice. E imaginou a garota vendo as rugas, e a tristeza em seus olhos. Qual não foi sua surpresa quando, depois de alguns instantes, a menina respondeu: Vovó, como a velhice é bonita!”(Autor desconhecido)

Paz e bem!
(Jaires Pinheiro)