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Paróquia Nossa Senhora da Conceição Pacajus - Ceará

No tempo dos nossos avós – parte I

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Por: paroquiapacajus

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Quem nunca ouviu ou proferiu, numa conversa, esta expressão: “No tempo dos nossos avós”? Todavia, à medida que o tempo avança, perdemos o contato com nossas raízes. Talvez seja difícil dizer o motivo pelo qual nos afastamos tanto das nossas origens. Poucas pessoas sabem que o real significado desta expressão vai muito além dos nossos laços consanguíneos. Portanto, evoca muito mais do que nossa parentela, os pais de nossos pais. Abarca todo o conhecimento, a tradição, a lei, a moral, os costumes, os hábitos, bem como os valores, as crenças e as experiências de nossos antepassados, em vários tempos e culturas.

Uma vez por outra, vejo-me mergulhado em pensamentos e acredito que é possível resgatarmos os costumes, os valores e reconstruirmos as boas maneiras de outrora. Esses dias, lembrei-me das convivências agradáveis que desfrutávamos à noitinha, sentados em roda, numa calçada, iluminados, por um lampião a querosene, às vezes, por uma fogueira. Início dos anos 70, não havia chegado até nós, interior de Ibicuitinga, Açude dos Pinheiros, a tão desejada “Energia de Paulo Afonso”.

Estas lembranças vieram-me por inspiração de uma postagem no Facebook da “turma da calçada”, um grupo de amigos que se reúne uma vez por semana para “jogar conversa fora”. Uma foto com o grupo sentado à calçada, com os dizeres: “Fim de noite de muitas risadas”! Contudo, o que me chamou a atenção e fez-me voltar no tempo, foram as interações virtuais, os comentários adicionados:

“É em Pacajus? Essa foto é recente? Povo corajoso viu”!

“Prudência, mas não medo, partilhando conversas e papos, vidas e relações”!

Sim, a foto era recente e o grupo não estava jogando conversa fora, mas partilhando suas experiências de vida! Será que este costume tão enriquecedor das rodas de amigos para conversas e convivências perdeu-se no tempo por medo da violência? Acredito que não! Na realidade, há algum tempo, a gente vem substituindo estas práticas familiares e solidárias pelo isolamento, atraído que somos pela tecnologia que outrora, era tão desejada, como a energia elétrica, com seus inúmeros benefícios, mas que atualmente, invadiram de tal forma as nossas vidas que levam de nós os melhores e mais doces momentos delas, aprisionando-nos em nossas casas, como se fôssemos exilados estrangeiros.

Ouso afirmar que, quando as pessoas se reúnem em suas calçadas, mesmo amedrontadas, evocam duas tradições: a dos negros escravizados no Brasil, que ao chorar, acometidos pelo banzo, combatiam esta saudade dos seus antepassados e da Mãe África, com atividades culturais, música, dança, comida e luta (capoeira), para preservarem os vínculos e os costumes de origem africana e, até mesmo, como formas de resistência à dura realidade do cativeiro. Organizavam-se, nas matas, em sua “turma da calçada”, os quilombos; evocam, também, as lembranças do povo da Bíblia, escravizados na Babilônica, forçados a abandonarem o lar e a romperem com a mais preciosa tradição e com Deus.

Uso estas duas imagens pois me questiono: não somos nós, de certa forma, escravos do tempo, do trabalho, da tecnologia, das redes sociais, do medo e da violência? Vejam que maravilha nos retrata o Salmista: “Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião. Ali, nos salgueiros penduramos as nossas harpas; ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções alegres, dizendo: “Cantem para nós uma das canções de Sião! ” Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estrangeira? (Sl 137,1-5).

Parece-me uma boa metáfora! Quanta saudade da Sião do tempo de nossos avós! Os rios da Babilônia hoje, são as calçadas, onde alguns ainda se encontram para falar de suas experiências. O que seriam então, os salgueiros? E quais as harpas que penduramos? Quem são os captores que nos roubam momentos tão ricos e tão edificantes? Quais as canções que cantamos? Penduramos nos salgueiros,  nossas tradições, nossas memórias, nossos costumes, nossos valores, nossas experiências comunitárias, nossa cultura. Estas são as harpas que estão ali, pertinho de nós, esquecidas nos baús da história, em cabides de madeira, sem serem tocadas, por medo de nossos opressores.

Não foi com esta intenção, mas o comentário, “É em Pacajus? … povo corajoso!” soa como a ironia dos conquistadores do povo de Deus, em tom de insulto, “Cantai para nós um canto de Sião”, como se indagasse: “Onde está o teu Deus”? Os conquistadores, que nos privam de nossa liberdade, são a insegurança, o medo, a violência, a acomodação, o egoísmo, a indiferença, o preconceito, a televisão e as redes sociais. Como então cantarmos felizes e em segurança diante desta realidade? Verdadeiramente, vivemos exilados, cativos em nossas próprias casas.

Ah, quanta saudade de Sião! Eis a lembrança que me veio a mente: Quando eu era criança, meus pais tinham muito orgulho de, muito cedo, ter nos alfabetizado. Uma visita em nossa casa era recebida com festa e a apresentação de todos os filhos. Depois, cada um lia um pequeno trecho de um livro para os visitantes, que ficavam maravilhados com aquilo, pois muitos não sabiam ler. Era realmente emocionante e nossos pais, orgulhosos, transbordavam de felicidade. Olha que éramos crianças de 7 a 9 anos, mas, muito desenvolvidos na arte da leitura.

Havia uma tradição no nosso lugarejo, Açude dos Pinheiros, terra abençoada pelo Padroeiro, São José. Um senhorzinho, conhecido por “seu Chico Silva”, era pescador, barbeiro e fabricante de tarrafas e redes de pesca, apreciador da literatura de cordel e todos os domingos, quando chegava da feira de Ibicuitinga, uma vila a 5 quilômetros da nossa comunidade, trazia alguns exemplares e, assim que chegava da feira, por volta do meio dia, ele, cansado da viagem, feita a pé, ia até nossa casa pedir, aos nossos pais, permissão para um dos filhos fazer a leitura logo mais à noite.

A reunião acontecia defronte a calçada de sua casa. A festa era garantida, também tínhamos a nossa “turma da calçada”. Eu era muito tímido, mas o meu irmão, mais velho, fazia isto com muita desenvoltura, interpretava os textos com maestria, arrancando lágrimas dos expectadores. Sentávamos num tamborete sobre uma calçada alta e os outros, uma grande multidão, no chão da rua de terra batida.

A calçada era o nosso palco. As obras eram geralmente de conteúdo bíblico (a Arca de Noé, o Dilúvio, a Travessia do Mar Vermelho, José no Egito, Davi e Golias, o Nascimento de Jesus); sobressaiam-se as aventuras de Pedro Malasartes, um personagem de origem portuguesa, famoso nos contos populares do Brasil, que encarnava a malandragem, a sabedoria e a esperteza e que levava a melhor contra os poderosos que desejavam explorá-lo; ainda tinha, as peripécias, as proezas de Lampião.

Divertíamo-nos com estas reuniões. Tínhamos o domínio sobre aquela plateia, apesar de sermos crianças. Não apenas líamos, declamávamos as poesias. Fazíamos questão de dramatizar, de colocar emoção nas cenas e lógico, muito suspense. Quantas vezes interrompemos as leituras para continuar somente no dia seguinte! Como uma novela, que só veio anos depois com a bendita eletricidade, interrompíamos a leitura nas cenas em que mais se esperava o desfecho. Assim, estava garantida a reunião e a plateia do dia seguinte. Meu irmão era um mestre nesta arte. Tudo era feito para envolver o povo, prender a atenção de todos que portavam-se com muito respeito, silêncio e admiração.

Bons tempos aqueles! Urge que os recuperemos, pois são marcados pela fraternidade. Havia muitas privações, por outro lado, tudo era motivo de festa e celebração: a colheita e a debulha do feijão e do milho; as farinhadas com a raspagem da mandioca e claro, os beijus deliciosos; os banhos, no sangradouro do Açude dos Pinheiros, nas épocas de cheias.

Voltando à turma da calçada, eu tive a graça de encontrar-me com os irmãos, quando rezaram um terço em ação de graças pela recuperação da minha saúde. Incluíram o santo terço nas convivências do grupo, por força de uma promessa feita por uma jovem. Ela testemunhou que não conseguia rezar o terço, mas, a partir do cumprimento da promessa, persevera na reza do Santo Rosário! Diria que comungo espiritualmente com a galera, e que há um desejo firme de uma presença física. Em breve, porei em prática, com a graça de Deus!

Pense nisso! Resgatemos nossas tradições, costumes e valores! Não podemos e não devemos abandonar as maravilhas que o Senhor realizou no meio de nós, no tempo de nossos avós. O Salmista promete nunca perder a esperança e jamais esquecer suas origens. Para isso, sempre cantarão as lembranças de Sião: “Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti” (Sl 137, 4-6).

Paz e bem!
(Jaires Pinheiro)