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Paróquia Nossa Senhora da Conceição Pacajus - Ceará

“Nossa Senhora ajudai-nos a superar a violência”!

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Violência é uma prática recorrente da humanidade, muito presente na vida do povo da Bíblia, tendo como nascedouro a adesão do homem ao pecado pela desobediência a Deus (Gn 3). A terra corrompia-se diante de Deus e enchia-se de violência (Gn 6,11) a ponto de irmãos usarem suas espadas como instrumentos de violência (Gn 49,5). A violência não é fruto do amor de Deus, mas a superação deste mal se encontra n’Ele conforme cântico de Davi: O Senhor é o meu rochedo, meu libertador, onde encontro o meu refúgio, meu escudo, meu salvador, que me salvais da violência (2Sm 22,2-4).

Esta chaga que aterroriza a humanidade atinge pessoas inocentes, de coração e mãos limpas, como Jó que estava em paz, mas foi ultrajado, esbofeteado e tudo lhe foi tirado, vilipendiando-o em sua dignidade. Não havia violência em suas mãos e era de oração pura (Jó 16, 10-17). Um grito que ecoa do coração do povo de Deus há mais de quatro mil anos, saiu do coração macerado de Jó: “Clamo contra a violência, e ninguém me responde; levanto minha voz, e não  há quem me faça justiça” (Jó 19,7).

Deus desejou exterminar a humanidade em face da violência que praticava (Gn 6,6). Em oração, Davi assim rezou: “Destruí-os, Senhor, porque só vejo violência na cidade (Sl 54,10). O desejo que preenche o coração do homem é de superação da violência sem apelar para a mesma e sem eliminar os que a praticam. Por isso Jesus manda que Pedro guarde a espada, pois deverá beber do cálice do sofrimento que o Pai lhe deu (Jo 18,11), para que estes corações violentos convertam-se, e conheçam também, a Misericórdia e a Salvação de Deus.

Os Salmos assim rezam: “Não confieis na violência” (Sl 61,11), “antes, roga a Deus para que olhe para a sua Aliança, porque todos os recantos da terra são antros de violência(Sl 73,20). Um outro grito ecoa no Livro de Eclesiastes: “Eis as lágrimas dos oprimidos e não há ninguém que os console de tantas opressões e violência” (Ecl 4,1).

Para a consolação, o homem confia no Senhor, trilha os seus caminhos, segue seus Mandamentos e acredita na realização das promessas de Deus, no Plano de Salvação, que exclui a prática da violência. Assim, por intermédio de sua Santa Padroeira, Imaculado Coração de Maria, a Comunidade do Limoeiro suplica a Deus para que restaure a paz sobre suas famílias, ajudando-as a superar a violência que atormenta a comunidade. Haverá consolação sim, pois está escrito no Livro do Profeta Isaías: “Não se ouvirá mais falar de violência em tua terra… (Is 60,18).

“Nossa Senhora, ajudai-nos a superar a violência”, eis o clamor do povo, inspirado na Campanha da Fraternidade. Este é um grito silencioso que ecoa da Comunidade do Limoeiro, na Festa da Padroeira, Imaculado Coração de Maria. Um grito que se junta a tantos outros, em tantas localidades. Silencioso por ser um grito que sai do coração de cada homem e de cada mulher, que sente os efeitos deste mal que destrói seus lares e suas famílias. Porque se faz pelo Anúncio da Palavra que, como a chuva que cai, não volta para Deus sem realizar a missão para a qual foi enviada (Is 55,11). Porque se espelha nas atitudes de quem tem fé, Maria, a mãe de Jesus, que passou por toda forma de violência, e diante de situações que não compreendia, guardava tudo em seu coração, esperando com confiança a consolação do povo e a realização das promessas do Pai, que se concretizam a partir da entrega do seu próprio ser, ao aceitar a proposta feita pelo Anjo Gabriel, na Anunciação, para ser a mãe do Salvador, concebido em seu ventre por obra do Espírito Santo (Lc 1).

Silencioso, porque feito na imitação do silêncio de Maria. Seguindo seus passos e suas atitudes diante de cada situação concreta em sua vida e na vida de sua Família. Por isso, não se trata de cruzar os braços diante desta tragédia que se abate sobre o povo. Ao contrário, quando se confia  na intercessão de Nossa Senhora, acredita-se na transformação de realidades injustas, pois deixa a acomodação, passa a agir e por meio da oração, que brota da Escuta da Palavra de Deus, se mantem em atitude de quem espera confiante, pois a tem como modelo e exemplo a ser seguido por todos, na comunidade.

Em Maria, Deus gestou a nova criação, consumada na Ressureição de Jesus. É o cumprimento das promessas conforme profetiza Isaias: “Antes mesmo de rogarem, eu  os atenderei. O lobo e o cordeiro se alimentarão juntos” (Is 65,24-25a). Nesta nova humanidade, “ninguém fará o mal, tampouco praticará qualquer ação destrutiva em todo o meu monte santo, diz o Senhor” (Is 65, 25b).

Estamos diante de um processo que requer perseverança na prática cristã da não violência para superar esta chaga que oprime e acorrenta o povo, dominando-o e aprisionando-o em suas casas, fazendo-o viver assustado e refém do medo. A violência que nos assola é fruto do pecado que  domina toda a terra e que expulsou o amor do coração dos homens. Deus prometeu superá-lo pela intercessão da mulher que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3,15). A superação da violência se faz no amor que gera a paz, portanto, vem pela mediação de Maria, uma vez que a Paz e o Amor nascem no seu ventre.

Este grito que ecoa na comunidade, não é de hoje. Em 1996, o Padre José Aírton Lima enviou alguns fieis, à Comunidade do Limoeiro com a missão de conhecer a realidade do povo, anunciar e celebrar a Palavra de Deus, criar núcleos de catequese e evangelização para animá-lo na fé. Neste tempo houve um despertar para a fé católica, que estava adormecida, bem como, nasce uma intimidade com Nossa Senhora, Padroeira da Comunidade, através da devoção ao Imaculado Coração de Maria. Aconteceu na realidade, um reavivar da chama do dom de Deus que o povo já havia recebido no Batismo (2Tm 1,6).

Durante seis meses, visitamos todas as famílias daquela comunidade: os que se diziam católicos, os protestantes, os ateus, e os de outras crenças. O programa era muito simples, visitas, pelas manhãs, sempre aos sábados, saciando a sede daquele povo de escuta da Palavra de Deus e de orações, e à noite, louvores a Deus e à Nossa Senhora, na Celebração da Palavra.

Realizamos grandes peregrinações, na presença fiel e companheira de Maria. Como diz a canção, Comunhão, de Frei Fabreti: “Andamos pelas vilas, apontamos as saídas, as portas da fé foram abertas, como nunca se viu”, pois onde dois ou três se reúnem eu seu nome, Senhor está no meio deles (Mt 18,20). A luz do Senhor brilhava em nós, seu Espírito nos conduzia, falava em nossa voz, na nossa vida, no nosso caminho e nos revigorava a cada dia com o Pão da Palavra e com o Pão da Eucaristia.

Este grito por superação da violência ecoava no seio da comunidade, desde aquela época. As famílias, pobres e carentes, viviam à margem da sociedade. Sofriam todo tipo de  privações: casas simples de pau a pique (taipa), fome e miséria, marcas de uma sociedade injusta e desigual, chagas principais da violência de outrora, agravada pelos governantes que “se recusavam à prática da justiça” (Pr 21,7), “não faziam o que é reto e amontoavam em seus palácios o fruto de suas violências e de seus roubos” (Am 3,10). Junta-se a esta realidade, as diversas formas de violência de hoje.

Não foi difícil perceber a ação do Espírito Santo na vida daqueles irmãos que começavam  a participar da comunidade com muito entusiasmo e podemos afirmar como São Lucas, nos Atos dos Apóstolos: “a cada dia o Senhor juntava à comunidade aqueles que iam aceitando a fé, a Palavra e a Salvação” (At 2,47). Destas casas simples, de famílias humildes, veio todo o suporte necessário. Lá fazíamos nossas refeições. As mulheres, a exemplo do que ocorrera com Jesus e com São Paulo, suportaram a missão com sua generosidade e com a partilha de dons materiais e espirituais.

Em maio de 1997, mês mariano, assumimos um grande desafio, celebrar o terço nas famílias. Nesta época a comunidade já se identificava com Maria e já manifestava amor e devoção à Santíssima Virgem, a ponto de confiar na sua ação, intercedendo pelas dores do povo e por suas dificuldades, transformando-as em bênçãos e graças, como ocorrera nas Bodas de Cana da Galileia (Jo 2).

Era uma festa no céu e outra na terra, a cada noite. Percorremos aquelas terras, iluminados à luz de vela. Passavam por baixo das cercas de arame farpado, jovens, crianças, adultos, idosos, famílias inteiras. Entretanto, a presença do Senhor era sentida, caminhando à nossa frente, como uma “coluna de fogo para nos alumiar” (Ex 13,21) e “fazer arder nossos corações” (Lc 24,32). Enquanto fazíamos esta travessia, Nossa Senhora nos aquecia, nas noites frias, “cobrindo-nos com seu manto cor de anil, guardando nossas vidas” (Música, Santa Mãe Maria – José Acácio Santana).

O Senhor nos impelia a visitarmos uma família, a cada noite, sempre nos deslocando de  um lado ao outro da comunidade. Uma noite celebrávamos na Favela, assim era conhecida aquela porção do povoado, na noite seguinte, íamos para o outro lado do povoado, cantando e louvando Maria, eternamente gratos, porque nos ensinou a sofrer e a viver. Impressionava a multidão que nos acompanhava, rezando o terço nas famílias e cantando, naquelas estradas escuras, entre limoeiros e cajueiros.

Enquanto cantávamos, alegremente, “com Maria quero caminhar, Ave Maria”, nossa mãe querida nos ensinava as indispensáveis lições para a superação da violência: Escutar o Senhor quando ele nos fala, pois isso, ela recebeu de seus pais, uma esmerada educação na fé, conhecia a história de luta e vida do seu povo, participava das festas religiosas de seu tempo, Pentecoste, Páscoa, e aos sábados, fortalecia a sua fé, escutando a Palavra de Deus nas Sinagogas. Era isso o que transmitíamos para as famílias. O povo se encantava com a história de Maria, sua luta, suas dores,  sua fé, sua confiança inabalável no Senhor, sua entrega, seu sim que a fez renunciar sua própria vontade e seus projetos pessoais para abraçar a vontade e o projeto de Deus. Tudo isso fazia arder o coração daquela gente, que por um instante esquecia as dores e os sofrimentos, ou melhor, sentiam que Deus transformava as dores e sofrimentos em alegria e festa.

Assim, animávamos o povo dizendo que era preciso copiar aquele modelo nas nossas famílias para superar a violência que vilipendiava sua dignidade. Quando ouviam falar de Deus, era possível perceber, a mesma alegria de Maria, naqueles rostos e semblantes marcados pelo sofrimento. O povo se identificava com Nossa Senhora. Diziam, se a Mãe de Nosso Senhor passou por tantas violência e superou cada uma delas, nós também conseguiremos, na graça de Deus Pai. Em vez de animar o povo, éramos animados por ele.

A mensagem que transmitíamos era simples: Imitem o exemplo de Maria no desejo de escutar a Deus e em pouco tempo, vossas casas também serão cheias de graça, pois o Espirito Santo habitará nelas, a partir de vossos corações. Aprendemos com a Palavra de Deus que a violência é fruto do pecado que nos domina, por isso, devemos nos abrir ao amor do Pai e à ação do Espírito Santo para sermos, também, totalmente plenos da graça de Deus, pois “o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8). Quantas vezes meditamos esta palavra que o anjo Gabriel dirigiu à Maria: “Ave cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28)!

Durante estas visitas, com a oração do Santo Terço, Deus realizava maravilhas, sinais e prodígios no meio da comunidade. A quantidade de irmãos que desejavam a reza do terço na sua família crescia a cada dia. Houve até um fato pitoresco: certo dia, as duas jovens da comunidade, Girlene e Nega, que nos acompanhavam nas visitas, vieram assustadas ao nosso encontro. Olharam para a Laíde, com os olhos arregalados e disseram: Tia, o povo daquela casa deseja que rezemos o terço lá. Era desta forma que se dirigiam a eles, “o povo daquela casa”, uma vez que praticavam bruxaria e feitiçaria. Por um momento, nos entreolhamos, eu, a Laíde, a Paula e o Ednardo e decidimos, o Espírito Santo e nós (At 15,28), que rezaríamos sim, o terço “naquela casa”. Ficou agendado para a noite seguinte. Eu e a Laíde conversamos durante a volta para casa, durante a noite e o dia seguinte, sobre como seria o terço naquela noite santa. Compreendíamos que não negaríamos a Palavra de Deus e a oração àqueles que as buscam, mas também, tínhamos a consciência de que não deveríamos nos calar diante desta prática pagã, do mal que faziam ao povo simples daquela comunidade, enganando-os e explorando-os em sua fé.

A verdade é que, por interseção de Maria, pedindo luzes do Espírito Santo para nos conduzir naquela missão. Ao chegarmos à comunidade, com o terço em uma das na mãos, a Palavra de Deus na outra e no coração, eis que as jovens, correram ao nosso encontro e ofegantes disseram que o terço não poderia ser naquela casa, pois ao realizarem um “trabalho”, durante o dia, uma pessoa sofreu queimaduras graves, a polícia foi acionada e os malfeitores bateram em retirada. Assim, naquele dia, o Senhor expulsou do Limoeiro aqueles exploradores da fé. Não rezamos para isso, o incêndio, mas acreditamos que tudo correu conforme a vontade do Senhor, pois aquilo que  não agrada o coração de Deus, não permanece de pé.

Assim, a violência ia perdendo espaço para o amor de Deus. O Anúncio da Palavra e a presença de Nossa Senhora ia transformando a realidade do povo. Alguns meses depois, concluímos o levantamento da realidade local, a quantidade de crianças não batizadas, sem Certidão de Nascimento, casais que constituíram família e não tinham o Sacramento do Matrimônio, ausência de catequese de iniciação cristã, Batismo, Eucaristia e Crisma. Junto a esta realidade espiritual, preocupava-nos, a realidade temporal, famílias desassistidas pelo poder público, sem renda, sem um meio de sobrevivência, sem saúde, sem educação, sem moradia digna, sem nenhum tipo de assistência social.

Como falar do amor de Deus e de caridade para um povo que nunca viu e nem sabe o que é Justiça Social? Apelamos à solidariedade humana e ao coração samaritano dos irmãos para, inicialmente, satisfazer as necessidades básicas daquele povo através da assistência social. Não se tratava de assistencialismo, uma vez que o anuncio a Palavra de Deus prepara todo aquele que a recebe para qualquer obra boa, pois quem, em atenção a Palavra de Deus lança as redes, aprende a pescar em grande quantidade (Lc 5,5-6). Para organizar a partilha dos irmãos, foram cadastrados vários casais e comerciantes que, mensalmente, doavam mantimentos, com os quais preparávamos as cestas básicas para distribuir âs famílias carentes. Como não eram suficientes para atender a todas as famílias, distribuíamos em sistema de rodízio, até comtemplar todas as casas.

Uma cesta básica, doada por nós, era entregue a uma família, escolhida previamente, independente de sorteio, tendo em vista a necessidade urgente e premente. Aprendemos boas lições com a simplicidade destas pessoas, com esta, ao entregar a Cesta básica a um casal, que  constrangido, nos indaga se poderia ceder a uma família mais necessitada do que eles? Quanta honestidade e quanta emoção! Sabíamos da necessidade daquela família, mas ela se preocupou, com a situação do outro, mais do que consigo mesma, a exemplo de Maria, jovem e grávida, que corre para socorrer Isabel (Lc 1, 39-80)! Era o amor de Deus que transformava os corações para a partilha, ou melhor, para doarem, até mesmo, o mínimo que tinham para sua sobrevivência. Aos poucos, a violência da fome e da miséria ia sendo superada pela força transformadora da Palavra de Deus.

Com a graça e Deus e ajuda de uma amigo, Gerente da Caixa, conseguimos promover um dia de Ação Social, através do Comitê de Cidadania daquela Empresa. Como a Comunidade não tinha estrutura para organizar a Ação, a mesma foi deslocada para a Comunidade vizinha, Dom Bosco, cuja animadora, Dona Maria Luísa, proporcionou um estrutura mínima para realização do evento. Ofertou lanche, almoço, guarida e acolhimento aos agentes da cidadania. Registre-se que também se tratava de uma comunidade carente, mas a fé gera partilha: “Eram perseverante em ouvir os ensinamentos dos Apóstolos, na Comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações e repartiam os bens conforme a necessidade de cada um (At 2,42.45).

Neste dia, foram assistidos irmãos de várias comunidades. O maior fruto desta ação, foi a visibilidade que se deu ao Limoeiro, esquecido no município e na paróquia. Tivemos algumas dificuldades, mesmo assim, foi êxito total, pois a mão do Senhor estava conosco. Certidão de Nascimento foi um dos serviços ofertados. O Cartório se comprometeu a ir ao local, mas no dia marcado não pode comparecer. Naquele tempo, ainda não era obrigatória e gratuita a expedição da Certidão de Nascimento. Conseguimos a doação de sessenta certidões. Só que em virtude deste problema, as família deveriam se deslocar até o cartório, durante a semana.

Como fazer isso, sem transporte e sem dinheiro para o deslocamento? Alguns reclamavam das dificuldades encontradas, tiverem que ir mais de uma vez ao Cartório. Outros queriam desistir. Durante uma Celebração da Palavra, um fiel intervém e diz que não devemos desistir. Esta foi a deixa para resolvermos o problema. Visitamos o cartório e contornamos a situação. Todos os que receberam as fichas, no dia da Ação Social, foram contemplados, não sem dificuldades, e nós os orientamos a não desistirem de seus direitos e de suas conquistas. Muitos direitos nos vem pela humilhação e muitos direitos se vão pela fácil desistência de lutar pelos mesmos. Maria nos ensina a permanecermos firmes, de pé, diante da Cruz e das dificuldades (Jo 19,25).

O maior fruto desta ação social, além da restituição da dignidade humana, foi a restituição da dignidade de filhos e filhas de Deus, pois a Certidão de Nascimento era necessária para a realização do Sacramento do Batismo. Promovemos uma grande festa na comunidade, a festa da vida nova, com vários batizados e três casamentos. Era a presença de Maria, com Jesus nestas Bodas de Caná (Jo 2,1-11), ou melhor, do Limoeiro.

Alguns meses depois, orientamos, por meio de formações, a escolha de uma padroeira para a comunidade. Após uma Assembleia, realizada antes da Celebração da Palavra, a Comunidade escolheu Nossa Senhora, ou melhor, “uma entre todas foi a escolhida”, pois Maria já morava no coração do povo e nós sugerimos o título do Imaculado Coração de Maria, uma vez que nossos encontros aconteciam no sábado, dedicado pela Igreja, à memória da Virgem Maria. Todos ficaram maravilhados com a escolha e assim, naquele mesmo ano, no mês de junho, celebramos nossa primeira festa da Padroeira. Desde então, ecoa este grito ao Coração Imaculado de Maria, ajuda-nos mãezinha a superarmos a violência que nos debilita física e espiritualmente.

Em seis meses, o Espírito Santo edificou um núcleo católico naquele lugarejo. O Povo tinha uma fé indefinida. No sábado, celebravam a Palavra conosco, na semana, se dividiam entre as Igrejas evangélicas, e outros aderiam à práticas religiosas pagãs. Mais uma vez, o Espírito Santo nos incumbiu de orientar a fé daquele povo e depois de várias exortações, os católicos abraçaram sua fé, quem era protestante seguiu seu rumo e quanto aos pagãos, muitos se converteram, não sem muita oração.

Criamos raízes naquela comunidade. As crianças, os jovens, as famílias faziam parte da nossa vida. Um povo de paz, acolhedor, pobre e sofredor, mas de muita fé. Nunca passamos necessidade na comunidade, íamos com a roupa do corpo, passávamos o dia inteiro, chegávamos em casa por volta das dez horas dada noite. Aquele povo não se cansava de nos acolher, de nos ouvir falar, tamanha a sede que tinha da Palavra de Deus. Hoje, o grito é para superar a violência trazida pelas drogas que tem ceifado a vida de vários jovens. Com eles, vai-se uma parte de nós. São mais do que membros de uma comunidade, são parte de nossa família, são como filhos e filhas.

Aqueles jovens foram catequisados e muitos realizaram seus sonhos. Lembro-me que entre uma catequese e outra, nos intervalos, um jovem, que hoje é Ministro da Palavra na Comunidade, manifestava o desejo de ser professor. Naqueles intervalos, eu tirava as dúvidas de matemática e física. Estava estudando Progressões Aritméticas. Tardes de domingo abençoadas aquelas. Eu ensinei Progressão Aritmética e a comunidade cresceu por Progressão Geométrica, graças à presença e a força do Espírito Santo, iluminando aqueles corações e à presença de Nossa Senhora, que com a sua sensibilidade dizia ao Filho, “Eles não tem mais vinho” e Jesus providenciava o melhor para a comunidade (Jo 2, 3.10).

Eles tinham reações estranhas durante as visitas. Por timidez, escondiam-se, mas a Palavra do Senhor os transformou, e hoje, são eles que estão à frente da comunidade, anunciando a Palavra  de Deus, com o canto, na catequese, nas Celebrações da Palavra, nas visitas missionárias, nas Festas da Padroeira, na oração do terço e de várias formas, “cada um colocando a serviço dos outros, o dom que recebeu (1Pd 4, 10).

Uma prece ecoa dos lábios e do coração do povo, suplicando a intercessão de Nossa Senhora: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Em resposta, o Imaculado Coração de Maria ajuda-lhes a superarem a violência, ensinando-os a prática do amor mútuo, Mandamento Novo que ela mesma semeou no coração de Jesus, a oração e a vigilância constantes, a intimidade com Deus pela escuta diária da Palavra e numa vida de serviço ao Reino de Deus, através da comunidade.

Paz e bem!
(Jaires Pinheiro)